Você realmente conhece a Ilha do Governador? A história surpreendente do lugar onde você vive

Ilha do Governador
Foto Mapa Baia de Guabara – Ilha do Governador

Você mora aqui, passa pelas ruas todos os dias, conhece cada esquina — mas aposto que nunca ouviu metade do que está neste artigo. A Ilha do Governador é o bairro mais antigo do Rio de Janeiro, a maior ilha da Baía de Guanabara, e guarda uma história que começa muito antes do Brasil existir como país. Tem invasão francesa, índios guerreiros, o maior navio do mundo construído aqui, Dom Pedro I tomando banho numa praia da ilha, e uma lista de famosos que moraram por aqui que vai te surpreender. Prepare-se para ver o lugar onde você vive com outros olhos.

Antes de ser “Ilha do Governador”, ela tinha outros cinco nomes

Poucos sabem, mas a ilha que hoje chamamos de Ilha do Governador já teve pelo menos seis nomes diferentes ao longo da história. Os índios Temiminós, seus primeiros habitantes, chamavam-na de Ilha de Paranapuã — que em tupi significa “colina do mar”. Os portugueses, ao chegar, a chamaram de Ilha do Mar. Depois veio Ilha dos Maracajás (por causa dos grandes felinos que habitavam o lugar), depois Ilha do Gato, depois Belle Isle (os franceses tiveram sua fase aqui, como veremos) e Ilha dos Sete Engenhos — antes de finalmente ganhar o nome atual em 1567.

Os franceses tentaram tomar a sua ilha

Isso mesmo. Em novembro de 1555, o oficial da marinha francesa Nicolas Durand de Villegagnon desembarcou no Rio de Janeiro com um objetivo ousado: fundar aqui uma colônia francesa chamada França Antártica. Os franceses expulsaram os índios Temiminós da ilha e se aliaram aos Tamoios, inimigos históricos dos Temiminós.

A reviravolta veio com uma aliança improvável: os portugueses se uniram aos Temiminós, liderados pelo cacique Arariboia — que conhecia cada palmo da ilha e tinha muitas contas a acertar com os Tamoios. A batalha decisiva aconteceu em 20 de janeiro de 1567, dia de São Sebastião. Os franceses foram expulsos definitivamente, e a fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro — o nome completo do Rio — foi celebrada. A Ilha do Governador estava no coração desse episódio fundador.

O nome veio de um presente do governador ao sobrinho

Em 5 de setembro de 1567, o governador-geral do Brasil, Mem de Sá, fez um presente inusitado ao sobrinho Salvador Correia de Sá: deu a ele mais da metade do território da ilha. O sobrinho, que depois se tornaria governador da Capitania do Rio de Janeiro, transformou a ilha numa enorme fazenda de cana-de-açúcar — com um engenho que produzia açúcar exportado para a Europa pelos séculos XVI, XVII e XVIII. Daí o nome: Ilha do Governador, em homenagem ao cargo de Salvador Correia de Sá.

Detalhe histórico importante: o engenho de cana construído por Salvador Correia de Sá foi o primeiro a produzir açúcar no Rio de Janeiro. A indústria que sustentaria o Brasil colonial por séculos começou aqui.

O maior navio do mundo foi construído na sua ilha

Em 1663, foi lançado ao mar na Ilha do Governador o Galeão Padre Eterno — na época, o maior navio do mundo. A embarcação foi construída num ponto da costa da ilha que passou a ser conhecido como Ponta do Galeão — e é exatamente daí que vem o nome do bairro do Galeão e, por extensão, do Aeroporto Internacional que leva o nome de Antônio Carlos Jobim. A próxima vez que você passar pelo Galeão, lembre: aquele nome tem mais de 350 anos de história.

Dom Pedro I tomava banho numa praia da ilha

No início do século XIX, o Príncipe-Regente Dom João utilizava a ilha como área de caça — uma coutada particular onde ia se distrair. Mas há um detalhe ainda mais pitoresco: segundo a tradição histórica, a Praia da Bica recebeu esse nome por causa de uma fonte de água que servia de banho ao jovem príncipe Dom Pedro — o mesmo que anos depois gritaria o Ipiranga e se tornaria Dom Pedro I, o primeiro imperador do Brasil. A praia onde hoje muitos ilhéus caminham foi, um dia, o banho favorito do futuro imperador.

Você já ouviu falar da epidemia de cólera que devastou a ilha?

Em 1855, os habitantes da Ilha do Governador foram duramente atingidos por uma epidemia de cólera — parte da segunda pandemia que varrreu o Brasil naquele século. A doença, que se espalhava pela água contaminada, matou muitos moradores e deixou marcas profundas na comunidade local. É um capítulo sombrio e pouco lembrado da história da ilha.

A ponte que libertou a ilha só veio em 1949

Por séculos, a Ilha do Governador dependeu de barcas para se conectar ao continente. As primeiras barcas a vapor chegaram em 1838, atracando na Freguesia. No início do século XX vieram os bondes elétricos, que faziam a ligação interna entre os bairros. Mas a ponte que rompeu o isolamento físico em relação ao continente só foi inaugurada em 31 de janeiro de 1949 — menos de oitenta anos atrás. Antes disso, para sair da ilha de carro ou ônibus, simplesmente não havia como.

Famosos que moraram na sua ilha

A Ilha do Governador tem uma lista de moradores ilustres que poucos imaginam. Entre os nomes confirmados:

  • Renato Russo — o vocalista e letrista da Legião Urbana, um dos maiores músicos da história do rock nacional, viveu na Ilha do Governador.
  • Fernanda Torres — atriz premiada internacionalmente, com indicação ao Globo de Ouro, morou na ilha.
  • Lima Barreto — o escritor carioca, considerado um dos maiores da literatura brasileira, também fez parte da história local.
  • Miguel Falabella — ator, diretor e escritor, é um dos insulanos mais conhecidos e declarados apaixonados pela ilha.
  • Leandro Hassum — o comediante e ator também tem suas raízes na Ilha do Governador.

A ilha que virou 14 bairros — e a escola de samba que ficou famosa

Em 23 de julho de 1981, por decreto do prefeito Júlio Coutinho, o “bairro” Ilha do Governador foi oficialmente extinto como unidade única e transformado nos seus atuais 14 bairros: Bancários, Cacuia, Cocotá, Freguesia, Galeão, Jardim Carioca, Jardim Guanabara, Moneró, Pitangueiras, Portuguesa, Praia da Bandeira, Ribeira, Tauá e Zumbi. Mas a identidade de “ilhéu” sobreviveu a qualquer decreto — e sobrevive até hoje.

E a cultura não ficou para trás: a ilha tem três escolas de samba próprias, sendo a mais famosa a União da Ilha do Governador, que já conquistou o Carnaval do Rio de Janeiro e é uma das mais tradicionais do grupo especial. A ilha que produziu açúcar para a Europa também produz samba para o mundo.

Uma ilha com sotaque próprio

Dizem os cariocas de outras partes da cidade que o morador da Ilha do Governador tem um jeito próprio de falar — quase um sotaque de quem cresceu num lugar com identidade forte e fechada sobre si mesma. Se é verdade ou lenda, só quem é ilhéu sabe responder. Mas o fato é que a Ilha do Governador tem algo que poucos lugares no Rio têm: um senso de pertencimento que atravessa gerações.

Invasão francesa, açúcar colonial, o maior navio do mundo, o banho do futuro imperador, Renato Russo e Fernanda Torres — tudo isso aconteceu aqui. Na sua ilha.

Veja também:

A História de Brás de Pina: Primeiro nome do bairro, Estrela em uma bandeira famosa.


E você, sabia de algum desses fatos? Qual te surpreendeu mais? Manda nos comentários — e compartilha com aquele amigo que acha que conhece tudo sobre a ilha. Spoiler: ele não conhece.

Se você curte descobrir a história real por trás dos lugares e personagens que parecem familiares, siga o Cortes Históricos. Tem muita história escondida esperando para ser contada.

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