As cinco vítimas canônicas de Jack, o Estripador: histórias reais
A história quase sempre lembra o nome do assassino e esquece o das vítimas. No caso mais famoso do true crime mundial, isso virou regra: todo mundo conhece “Jack, o Estripador”, mas pouquíssimos sabem dizer quem foram as mulheres mortas por ele no outono de 1888, em Londres. Elas ficaram reduzidas a um rótulo frio — “prostitutas de Whitechapel” — e a uma sequência de cadáveres. Este artigo faz o caminho inverso. Aqui, as cinco vítimas canônicas deixam de ser estatística e voltam a ser pessoas: filhas, mães, esposas, trabalhadoras pobres com nomes, infâncias e histórias reais.
Quem decidiu que eram exatamente cinco vítimas de Jack, o Estripador?
Antes das biografias, um fato pouco divulgado: o número “cinco” não é uma certeza absoluta — é uma escolha oficial. A lista das vítimas canônicas foi consolidada num memorando de 1894 do alto funcionário da Polícia Metropolitana Sir Melville Macnaghten, que afirmou com convicção que o assassino fizera cinco vítimas, todas em 1888. O arquivo policial mais amplo, intitulado “Whitechapel Murders“, lista onze mulheres mortas entre abril de 1888 e fevereiro de 1891. Mas foi a seleção de Macnaghten que a história fixou. São elas: Mary Ann Nichols, Annie Chapman, Elizabeth Stride, Catherine Eddowes e Mary Jane Kelly.
Mary Ann “Polly” Nichols
Nascida Mary Ann Walker, em 26 de agosto de 1845, em Londres, Polly casou-se com o impressor William Nichols em 1864 e teve cinco filhos. O casamento ruiu, e ela mergulhou num ciclo cruel de albergues, casas de cômodos e alcoolismo — a realidade de incontáveis mulheres pobres da era vitoriana.
Há um detalhe que resume a brutalidade econômica daquele mundo: na noite de sua morte, Polly foi expulsa de uma hospedaria barata por não ter os quatro pênis (fourpence) que pagavam uma cama. A uma conhecida, Emily Holland, ela teria dito que conseguiria o dinheiro de algum jeito. Horas depois, em 31 de agosto de 1888, seu corpo foi encontrado em Buck’s Row. Tinha 43 anos. Foi a primeira das cinco vítimas canônicas de Jack, o Estripador.
Annie Chapman
Annie Eliza Smith nasceu em 25 de setembro de 1840. Recém-separada do marido e morando sozinha, Annie enfrentava uma doença pulmonar crônica e o mesmo inimigo silencioso de Polly: o álcool e a miséria. Apelidada de “Dark Annie”, foi mãe de três filhos.
Sua morte, em 8 de setembro de 1888, em Hanbury Street, repetiu de forma quase poética a tragédia anterior: também Annie passara a noite tentando juntar os centavos da cama que não tinha. Aos 47 anos, tornou-se a segunda das vítimas canônicas. Foi dela que o assassino retirou o útero — detalhe que ajudaria a alimentar décadas de especulação sobre o perfil de Jack, o Estripador.
Elizabeth Stride
A terceira vítima trouxe um sotaque estrangeiro a esta história. Elizabeth nasceu Elisabeth Gustafsdotter, na Suécia, em 27 de novembro de 1843. Ainda no país natal, passou por um natimorto. Emigrou para a Inglaterra em 1866 e, em 1869, casou-se com o carpinteiro John Thomas Stride, em Londres. A união durou cerca de uma década e terminou em 1881. Nos últimos anos de vida, dividiu o dia a dia com o companheiro Michael Kidney.
Elizabeth morreu na madrugada de 30 de setembro de 1888, na primeira metade do episódio que ficou conhecido como “o duplo evento” — duas vítimas na mesma noite. Sua garganta foi cortada, mas, ao contrário das outras, seu corpo não sofreu mutilações abdominais, o que levou muitos a acreditarem que Jack, o Estripador foi interrompido.
Catherine Eddowes
“Kate”, como era chamada, não vinha de Londres nem da Suécia: nasceu em 14 de abril de 1842, em Wolverhampton. Frequentou escolas de caridade na infância e era descrita por quem a conhecia como inteligente, embora de temperamento difícil. Perdeu os pais cedo, ficou afastada dos filhos e veio para Londres ao lado do companheiro John Kelly.
A ironia mais amarga de sua história está nas horas finais. Na mesma madrugada de 30 de setembro de 1888, Catherine havia sido detida por embriaguez e mantida numa cela policial. Foi liberada de madrugada — e caminhou direto para a morte. Encontrada em Mitre Square, foi a segunda vítima do “duplo evento”. Dela, o assassino retirou o útero e um rim, e ainda mutilou seu rosto. A quarta das cinco vítimas canônicas tinha 46 anos.
Mary Jane Kelly
A última e mais enigmática das cinco. De Mary Jane Kelly sabemos quase nada com certeza — nem sequer há prova definitiva de que esse fosse seu nome verdadeiro. Segundo o companheiro Joseph Barnett, ela teria nascido em Limerick, na Irlanda, e dizia ser filha de um homem chamado John Kelly. Tudo o que conhecemos de seu passado depende do que ela própria escolheu contar.
Com cerca de 25 anos, era de longe a mais jovem do grupo. Sua morte, em 9 de novembro de 1888, foi também a mais perturbadora: foi a única das vítimas canônicas assassinada dentro de casa, em seu quarto no número 13 de Miller’s Court. Sem a pressa e a escuridão das ruas, o assassino infligiu a mutilação mais extrema de toda a série. Com ela, encerrou-se a sequência oficial dos crimes.
O rótulo que roubou suas vidas
Por mais de um século, repetiu-se que as cinco eram prostitutas. Mas esse rótulo merece uma investigação à parte. Já na época, o próprio comissário da Polícia Metropolitana, Sir Charles Warren, admitiu não haver como saber com precisão quais mulheres eram prostitutas e quais não eram — a lei vitoriana era tão ampla que praticamente qualquer mulher pobre, sozinha e sem teto podia ser classificada assim.
Em 2019, a historiadora Hallie Rubenhold levou essa questão adiante no premiado livro The Five (vencedor do Baillie Gifford Prize). Após pesquisa em arquivos inéditos, ela argumentou que não há prova sólida de que três das cinco tenham trabalhado com sexo, e que várias podem ter sido atacadas simplesmente porque dormiam ao relento. A tese é debatida — há historiadores que discordam —, mas o ponto central é difícil de contestar: o estigma de “apenas prostitutas” funcionou, por mais de 130 anos, para desumanizar essas mulheres e justificar o desinteresse por suas vidas.
O que é fato confirmado, e basta para mudar o olhar: as cinco viviam na pobreza extrema, muitas marcadas por separações, perdas de filhos, doença e dependência do álcool. Não eram personagens. Eram sobreviventes de um mundo implacável — até a noite em que deixaram de sobreviver.
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E você, conhecia as histórias por trás dos nomes? Qual das cinco vidas mais te tocou — e você acha que a história deveria lembrar mais das vítimas do que do assassino? Conte nos comentários o que pensa sobre isso.
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