Nintendo: de cartas de baralho a império dos videogames

É difícil imaginar que a empresa por trás de Mario, Zelda e Pokémon tenha começado mais de meio século antes da invenção do videogame. Mas é exatamente esse o ponto mais fascinante da história da Nintendo: uma trajetória de mais de 130 anos que vai de uma pequena fábrica de cartas de baralho na Kyoto do século XIX ao maior império dos videogames do planeta. Esta é a história completa de como isso aconteceu.

Nintendo
Créditos: Imagens obtidas no site da Nintendo

Quando a Nintendo foi fundada?

A Nintendo foi fundada em 23 de setembro de 1889, em Kyoto, no Japão, pelo artesão Fusajiro Yamauchi. Naquela época, não havia nada de eletrônico no negócio: a empresa produzia, à mão, cartas de baralho do tipo hanafuda — as “cartas de flores”, ilustradas com imagens em vez de números. Como os baralhos de estilo ocidental estavam proibidos no Japão, o hanafuda preencheu o espaço e caiu no gosto popular, sobretudo em casas de jogo. As cartas de Yamauchi, caprichadas e duráveis, fizeram tanto sucesso que ele precisou contratar ajudantes para dar conta da produção.

O que significa “Nintendo”?

Aqui mora um dos mitos mais repetidos sobre a empresa. Diz-se com frequência que “Nintendo” significa “deixe a sorte com os céus”, uma tradução possível dos caracteres japoneses do nome (任天堂). A explicação combina perfeitamente com uma fábrica de cartas de jogo — mas, na verdade, não há registro histórico que confirme essa intenção. Nem os descendentes do fundador sabem ao certo o sentido pretendido. Ou seja: a interpretação mais famosa é plausível, porém não comprovada.

O longo reinado das cartas de baralho

Durante décadas, a Nintendo foi, antes de tudo, uma fabricante de cartas. No início do século XX, tornou-se a primeira empresa japonesa a produzir baralhos no estilo ocidental e montou uma rede de distribuição nacional, vendendo seus produtos até em tabacarias. Em 1929, já era a maior fabricante de cartas de baralho do Japão. Como Fusajiro Yamauchi não tinha um filho homem para herdar o negócio — costume da época —, adotou um genro, que assumiu a empresa e manteve a tradição familiar no comando. A casa seguiu firme no ramo das cartas, criando inclusive um braço de distribuição próprio na década de 1940.

A virada de Hiroshi Yamauchi

O grande ponto de inflexão veio com Hiroshi Yamauchi, herdeiro da família fundadora, que assumiu a presidência em 1949. Em 1956, ele viajou aos Estados Unidos para estudar o mercado e teve uma constatação incômoda: o negócio de cartas de baralho era pequeno e tinha pouco espaço para crescer. A solução foi ousada para a época. No fim dos anos 1950, a Nintendo fechou um acordo com a Disney para estampar seus personagens nos baralhos, o que disparou as vendas. O sucesso foi tão grande que, em 1962, a empresa abriu o capital na bolsa e, no ano seguinte, adotou oficialmente o nome Nintendo Co., Ltd., sinalizando que pretendia ir muito além das cartas.

As experiências malucas dos anos 1960

Decidida a se reinventar, a Nintendo passou por uma fase de tentativa e erro que hoje soa surpreendente. Antes de encontrar seu caminho, a empresa apostou em negócios tão diversos quanto uma rede de táxis, hotéis para casais e até pacotes de arroz instantâneo — empreitadas que fracassaram. O acerto veio quando ela mergulhou no mercado de brinquedos, impulsionada pelo talento do engenheiro Gunpei Yokoi, autor de sucessos como o brinquedo Ultra Hand. Era o embrião de uma cultura de inovação que definiria a empresa.

A entrada no mundo dos jogos eletrônicos

Dos brinquedos aos eletrônicos foi um passo. Na década de 1970, a Nintendo lançou-se nos jogos eletrônicos, primeiro com produtos como o console doméstico Color TV-Game e com máquinas de fliperama. Em 1980, deu um passo decisivo no formato portátil com a linha Game & Watch, também criada por Gunpei Yokoi — pequenos jogos eletrônicos de bolso que se tornaram febre e anteciparam a vocação da empresa para o entretenimento que cabe na mão.

Donkey Kong e o nascimento de Mario

Em 1981, um jovem designer chamado Shigeru Miyamoto criou para os fliperamas um jogo chamado Donkey Kong. Nele aparecia um carpinteiro de macacão e boné, batizado de “Jumpman”, que precisava resgatar uma mocinha de um gorila gigante. Esse personagem logo ganharia um novo nome — Mario — e se tornaria o maior símbolo da Nintendo e um dos ícones mais reconhecíveis da cultura pop mundial. O sucesso dos fliperamas convenceu a empresa a apostar de vez nos consoles domésticos.

Famicom, NES e a salvação dos videogames

Em 1983, a Nintendo lançou no Japão o Family Computer, ou Famicom. Dois anos depois, ele chegou ao Ocidente rebatizado de Nintendo Entertainment System (NES). O momento não poderia ser mais delicado: a indústria de videogames havia sofrido um colapso de confiança nos Estados Unidos em 1983. A Nintendo reverteu o quadro com uma estratégia rígida de qualidade e licenciamento, controlando quais jogos podiam rodar em seu console. Acompanhado de títulos lendários como Super Mario Bros. e The Legend of Zelda, o NES não só salvou o setor como reposicionou a Nintendo no centro dele.

Game Boy e a era de ouro dos portáteis

Em 1989, a empresa revolucionou novamente o mercado com o Game Boy, o primeiro portátil de enorme sucesso com cartuchos intercambiáveis — mais uma criação ligada a Gunpei Yokoi. Tecnicamente modesto, mas barato, durável e com um catálogo irresistível, ele se tornou um dos consoles mais vendidos da história, ultrapassando a marca de 100 milhões de unidades e levando games para o bolso de uma geração inteira.

Das 16 bits ao 3D

Nas décadas seguintes, a Nintendo acompanhou — e muitas vezes liderou — os saltos tecnológicos do setor. Veio o Super Nintendo (SNES), de 16 bits, no início dos anos 1990; depois o Nintendo 64, que popularizou os gráficos tridimensionais; e, em 2001, o GameCube, que abandonou os cartuchos em favor dos discos ópticos. Em paralelo, os portáteis seguiram firmes, com sucessores do Game Boy mantendo a empresa dominante nesse nicho.

Wii, DS e a reinvenção do jeito de jogar

Em meados dos anos 2000, em vez de disputar apenas potência gráfica com os concorrentes, a Nintendo escolheu reinventar a forma de jogar. O Nintendo DS, com duas telas e toque, e principalmente o Wii, de 2006, com seus controles de movimento, levaram os videogames a um público que jamais havia pegado num joystick — de crianças a idosos. Foi um sucesso estrondoso, que reafirmou a marca de fazer diferente em vez de fazer só “mais forte”. Foi também nessa transição que a empresa teve, pela primeira vez, um presidente de fora da família fundadora, Satoru Iwata, a partir de 2002.

Switch e a Nintendo de hoje

Em 2017, a Nintendo lançou o Switch, um console híbrido que funciona tanto na TV quanto como portátil — síntese perfeita das duas vocações que a empresa cultivou por décadas. O aparelho se tornou um dos maiores sucessos comerciais de sua história, com mais de 140 milhões de unidades vendidas, e ganhou sucessor com o Switch 2, lançado em 2025. Somando toda a sua trajetória, a Nintendo já comercializou mais de 6 bilhões de jogos e centenas de milhões de consoles, sustentada por franquias eternas como Mario, Donkey Kong, Zelda, Pokémon, Metroid e Kirby.

Fatos e mitos sobre a Nintendo

Poucas empresas reúnem tantas curiosidades. O significado “deixe a sorte com os céus”, embora célebre, nunca foi confirmado. As cartas de baralho que deram origem ao negócio eram populares em casas de jogo da época — incluindo, segundo relatos históricos, ambientes ligados ao crime organizado japonês. E, antes de virar gigante dos games, a empresa de fato tentou a sorte com táxis, hotéis e arroz instantâneo. Talvez o fato mais impressionante de todos seja simplesmente este: a Nintendo é mais velha que o automóvel popular, que o avião e que o próprio cinema — e mesmo assim se mantém na vanguarda do entretenimento mais de um século depois.

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Perguntas frequentes

Quando a Nintendo foi fundada?
A Nintendo foi fundada em 23 de setembro de 1889, em Kyoto, no Japão, por Fusajiro Yamauchi.

O que a Nintendo fabricava no início?
No começo, a empresa produzia cartas de baralho artesanais do tipo hanafuda. Só entrou no mundo dos videogames muitas décadas depois.

O que significa o nome Nintendo?
A interpretação mais comum é “deixe a sorte com os céus”, mas não há registro histórico que confirme esse significado — é uma tradução plausível, e não um fato comprovado.

Quem criou o Mario?
O personagem foi criado pelo designer Shigeru Miyamoto, surgindo em 1981 no jogo de fliperama Donkey Kong, no qual era chamado de “Jumpman”.

Qual foi o primeiro console de sucesso mundial da Nintendo?
O Famicom (1983, no Japão), lançado no Ocidente como NES em 1985, foi o console que consagrou a empresa e ajudou a reerguer a indústria de videogames.


Artigo elaborado com base em informações públicas de fontes como o site oficial da Nintendo, enciclopédias e veículos especializados em história e tecnologia. As datas e fatos refletem os registros disponíveis até a data de publicação.

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