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Maníaco do Parque: o Serial Killer que a Polícia Não Estava Procurando — e que Voltará às Ruas em 2028

Entre 1997 e 1998, onze mulheres desapareceram na zona sul de São Paulo. Os corpos foram encontrados em áreas de mata no entorno do Parque do Estado. A polícia não havia ligado os casos. Não havia um perfil do criminoso, não havia uma investigação centralizada, não havia alerta público. Francisco de Assis Pereira foi preso numa blitz de trânsito de rotina — não porque as autoridades o estavam procurando. Em agosto de 2028, após cumprir o máximo de 30 anos previsto pela legislação da época, ele poderá deixar a prisão. Sem ter passado por uma única avaliação psicológica nos últimos 27 anos. Este é o caso que expõe, ao mesmo tempo, um criminoso e um sistema.

Quem era Francisco de Assis Pereira

Francisco de Assis Pereira nasceu em 1968, em São Paulo. Trabalhava como motoboy e não tinha ficha criminal expressiva antes dos crimes. Era descrito por conhecidos como educado, prestativo, difícil de suspeitar. O jornalista Ullisses Campbell, que escreveu o livro mais completo sobre o caso, resume o perfil: “Ele era invisível, como todo psicopata. Muito elogioso, educado, empático… Nem parece o Maníaco do Parque.”

Essa invisibilidade foi sua principal arma — e a principal razão pela qual os crimes duraram tanto sem que as autoridades identificassem um padrão.

O método: promessa de emprego e a garupa da moto

O modus operandi do Maníaco do Parque era simples e eficaz. Ele abordava mulheres em pontos de ônibus e locais de movimento, oferecendo emprego como modelo ou em agências de publicidade. Convidava-as a ir com ele de moto até um suposto escritório ou estúdio. O trajeto terminava nas matas do Parque do Estado.

O que mais impressionou os investigadores depois da prisão foi a pergunta que não conseguiam responder: como alguém convencia mulheres a subir na garupa de uma moto com um desconhecido e ir para o meio de um matagal? A resposta estava no perfil — na aparência de normalidade, na conversa articulada, na proposta de emprego que fazia sentido para mulheres em situação econômica vulnerável.

A polícia que não estava procurando

Entre 1997 e 1998, os desaparecimentos e os corpos encontrados no entorno do parque não foram tratados como uma série de crimes conectados por investigação centralizada. A realidade é que os casos demoraram para ser relacionados — e quando finalmente o foram, a prisão não veio de uma operação investigativa, mas do acaso.

Em 4 de agosto de 1998, Francisco foi parado numa blitz policial de rotina. A abordagem revelou inconsistências. Na sequência das investigações desencadeadas pela blitz, ele confessou os crimes. A prisão de um dos maiores serial killers da história brasileira foi, em última análise, resultado de uma parada de rotina no trânsito.

A confissão e as vítimas

Francisco confessou o assassinato de 11 mulheres. Foi condenado por sete homicídios qualificados — nos outros casos, houve dificuldades de prova suficiente para condenação —, além de estupro, ocultação de cadáver e atentado violento ao pudor. A sentença somada ultrapassou 280 anos de prisão.

Mas a legislação brasileira vigente na época dos crimes estabelecia que nenhum condenado poderia cumprir mais de 30 anos de prisão, independentemente da sentença total. Essa regra foi alterada em 2019, ampliando o limite para 40 anos — mas a mudança não se aplica retroativamente a crimes anteriores a 2020. Resultado: Francisco de Assis Pereira tem previsão de soltura para agosto de 2028.

27 anos sem avaliação psicológica

Aqui está o ponto mais perturbador do caso — não para o debate sobre a pena, mas para o debate sobre o que o Estado fez (ou não fez) com o tempo que tinha.

Na época dos crimes, Francisco foi avaliado por psiquiatras e diagnosticado com transtorno de personalidade antissocial — condição descrita pelos especialistas como crônica e sem cura, que demanda acompanhamento contínuo. Desde então, segundo sua atual advogada, Caroline Landim, ele não passou por nenhuma avaliação psicológica, médica, odontológica ou recebeu acompanhamento jurídico por mais de uma década.

“Ele não teve acompanhamento psicológico, médico, odontológico ou jurídico. Não sabemos qual é a real situação dele hoje”, afirmou Landim ao portal UOL. Num episódio relatado pela defesa, Francisco chegou a arrancar os próprios dentes com linha de costura após anos aguardando atendimento odontológico que nunca veio.

Em 2018, o Ministério Público pediu à Justiça a realização de novo exame do estado mental para avaliar a possibilidade de impedir a soltura em 2028. O resultado desse processo ainda não está encerrado. A Justiça enfrenta o mesmo dilema de outros casos semelhantes: um condenado que cumpriu a pena legalmente estabelecida, mas que nunca recebeu o tratamento que o próprio sistema prescreveu.

O que dizem os especialistas

Psiquiatras ouvidos ao longo dos anos sobre o caso foram categóricos: o transtorno de personalidade antissocial não desaparece com o tempo na prisão sem tratamento. A advogada criminalista Jacqueline Valles, especialista em direito penal, comparou a situação à de Champinha — o assassino do casal Liana Friedenbach e Felipe Caffé — que também ficou preso num limbo jurídico e institucional por anos.

A própria mãe de Francisco, em entrevista ao documentário Maníaco do Parque — A História Não Contada, do Prime Video, demonstrou ambiguidade sobre a soltura do filho: “A gente até queria que ele saísse, tivesse liberdade, mas ele não vai ter paz mais na vida dele. Então eu preferia que ele ficasse em observação, é incurável isso. Nem eu sei o que é melhor pra ele.”

O documentário e o livro que reabriram o debate

O caso voltou ao centro do debate público em 2024, com o lançamento do documentário Maníaco do Parque no Prime Video e do livro Francisco de Assis, O Maníaco do Parque, do jornalista Ullisses Campbell — que se tornou o segundo livro de não-ficção mais vendido no Brasil naquele período.

A combinação de entretenimento e a aproximação da data de 2028 transformou o caso numa discussão nacional sobre os limites do sistema penal brasileiro: o que fazer com condenados que cumpriram a pena legalmente, mas que especialistas consideram ainda perigosos? A pergunta não tem resposta fácil — e o Estado brasileiro tem menos de três anos para encontrar uma.

O caso que não termina

O Maníaco do Parque não é apenas a história de Francisco de Assis Pereira. É a história de onze mulheres cujos casos demoraram a ser conectados, de uma prisão que resultou de uma blitz e não de investigação, de um sistema que condenou a 280 anos e tratou por zero, e de uma decisão judicial que o Brasil precisará tomar antes de agosto de 2028.

O que a Justiça decidirá é uma incógnita. O que os fatos já revelaram é que a sentença foi longa — e o tratamento, inexistente.


E você, o que acha que deveria acontecer com Francisco de Assis Pereira em 2028? É um debate que envolve lei, segurança pública e os limites do sistema penal. Deixe sua opinião nos comentários — com respeito às vítimas e à seriedade do tema.

Se você quer continuar acompanhando os casos que expõem as contradições do sistema de Justiça brasileiro, inscreva-se e siga o Cortes Históricos. A apuração não para onde a sentença começa.

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Este artigo baseia-se em decisões judiciais transitadas em julgado, declarações públicas de advogados e especialistas, e informações de domínio público amplamente documentadas pela imprensa brasileira. Trata-se de relato factual, sem intenção de ofensa às pessoas citadas.

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