Nero: o Imperador que Matou a Própria Mãe — e realmente foi quem incendiou Roma?

A história oficial de Nero é simples e conveniente: um tirano louco que tocava lira enquanto Roma queimava, que perseguiu cristãos por prazer e que destruiu tudo ao redor. A história real é mais perturbadora — e mais interessante. Nero de fato mandou matar a própria mãe, a própria esposa, seu meio-irmão e o filósofo que foi seu tutor. Mas provavelmente não incendiou Roma, definitivamente não tocou lira enquanto o fogo ardia, e governou os primeiros anos de seu reinado de forma tão competente que Trajano — considerado um dos melhores imperadores romanos — diria mais tarde que o início do governo de Nero superou todos os outros. A complexidade é o que torna esse personagem fascinante após dois mil anos.
O menino que a mãe colocou no trono
Nero nasceu Lúcio Domício Enobarbo em 15 de dezembro de 37 d.C., em Âncio, bisneto do imperador Augusto e sobrinho-neto de Calígula. Seu pai morreu quando ele tinha três anos. O que se seguiu foi uma jogada política magistral de sua mãe, Agripina a Jovem — uma das mulheres mais ambiciosas e capazes de toda a história romana.
Agripina se casou com seu próprio tio, o imperador Cláudio, e o convenceu a adotar Nero como herdeiro — preterindo o próprio filho biológico de Cláudio, Britânico. Quando Cláudio morreu em 54 d.C. — possivelmente envenenado por um prato de cogumelos, suspeita que paira sobre Agripina sem confirmação definitiva — Nero assumiu o trono aos 17 anos, apoiado pela mãe, pela Guarda Pretoriana e por boa parte do Senado.
Nos primeiros cinco anos, o governo foi tão equilibrado que os historiadores o chamaram de quinquennium Neronis — os cinco anos de Nero — e o citam como um período de boa administração. Nero tinha como tutor o filósofo Sêneca e o prefeito pretoriano Burro, e seguia os conselhos deles. Mas a relação com Agripina se deteriorou rapidamente. Ela havia colocado o filho no trono e esperava governar através dele. Nero tinha outras ideias.
A tentativa do barco: quando o assassinato virou farsa
A primeira tentativa de Nero de eliminar a mãe foi tão elaborada quanto fracassada. Convidou Agripina para uma festa à beira-mar e, na volta, a colocou num navio especialmente projetado para se desintegrar em alto mar. O barco funcionou conforme planejado — a embarcação começou a afundar. Agripina sobreviveu a nado. Chegou em casa. E enviou um mensageiro a Nero comunicando que havia sobrevivido a um “acidente”.
Nero, segundo as fontes antigas, ficou em pânico. Sabia que a mãe entenderia o que havia acontecido. Mandou o mensageiro preso, acusou Agripina de conspiração contra o imperador e enviou assassinos à sua villa. Em 59 d.C., Agripina foi morta. Os registros históricos indicam que, ao ver os homens com as espadas, ela teria aberto a própria barriga e dito: “Golpeiem o ventre que gerou Nero.”
O Grande Incêndio de Roma: o mito da lira
Em julho de 64 d.C., um incêndio devastador varreu Roma por seis dias. Destruiu completamente três dos quatorze distritos da cidade e danificou seriamente outros sete. Quando o fogo começou, Nero estava em sua villa em Âncio — fora de Roma. Voltou à cidade e organizou campos de refugiados, abriu seus próprios jardins para os desabrigados e providenciou suprimentos.
A história de Nero tocando lira enquanto Roma ardia — além de ser anacronismo, já que a lira era instrumento grego, não romano — contradiz o registro de que ele nem estava na cidade quando o fogo começou. O historiador Tácito, que é a principal fonte sobre o período, mencionou os rumores de que Nero havia ordenado o incêndio para abrir espaço para novos projetos de construção, mas o próprio Tácito ressalvou que os rumores podiam ser falsos. Historiadores modernos consideram improvável que Nero tenha iniciado o fogo, especialmente porque ele destruiu o palácio imperial junto com o resto da cidade.
O que Nero fez depois do incêndio é mais revelador: aproveitou o espaço liberado pelo fogo para construir a Domus Aurea — a Casa de Ouro, um palácio de proporções extravagantes com um lago artificial, jardins imensos e uma estátua de si mesmo com mais de 30 metros de altura. A iniciativa privada que usou a tragédia pública para benefício próprio não é invenção moderna.
Os cristãos como bode expiatório
Para se eximir das suspeitas sobre o incêndio, Nero acusou os cristãos de tê-lo provocado. Na época, os cristãos eram uma minoria marginalizada e impopular em Roma — alvo perfeito para transferência de culpa. A perseguição que se seguiu foi brutal: cristãos foram crucificados, jogados às feras no circo e queimados vivos para iluminar os jardins imperiais à noite.
Foi durante o governo de Nero que, segundo a tradição cristã, os apóstolos Pedro e Paulo foram martirizados em Roma. Nero tornou-se, para os cristãos dos séculos seguintes, o símbolo da perseguição imperial — e alguns estudiosos identificam referências a ele no livro do Apocalipse, onde o número 666 corresponderia ao valor numérico do nome “Nero César” em hebraico.
A morte da esposa, do tutor e o fim do reinado
O rastro de mortes de Nero não parou na mãe. Em 62 d.C., mandou matar sua primeira esposa Otávia — acusada falsamente de adultério — para se casar com Popeia Sabina, por quem era apaixonado. Anos depois, numa discussão, chutou Popeia grávida. Ela morreu. Nero mandou matar também Sêneca, seu próprio tutor e um dos maiores filósofos romanos, sob acusação de participação numa conspiração.
Em 68 d.C., depois de anos de tensão crescente com o Senado e de rebeliões nas províncias, o governador da Espanha, Sérvio Galba, marchou sobre Roma. O Senado declarou Nero inimigo público. A Guarda Pretoriana o abandonou. Sem nenhum apoio, Nero fugiu para uma villa nos arredores de Roma com poucos servos.
Segundo o relato de Suetônio, suas últimas palavras antes de se apunhalar com a ajuda de um secretário foram: “Que artista morre comigo.” Tinha 30 anos.
O imperador que a história não sabe como julgar
Nero é um dos personagens mais contraditórios do mundo antigo. Assassino da própria mãe e da própria esposa, perseguidor dos cristãos, responsável pela morte de filósofos e senadores — são fatos documentados. Mas também foi um governante competente nos primeiros anos, um homem genuinamente apaixonado pelas artes que se apresentava publicamente como cantor e atleta numa época em que isso era escandaloso para a elite romana, e provavelmente não o piromaníaco que a tradição construiu.
Boa parte do que sabemos sobre Nero vem de historiadores como Tácito e Suetônio que escreveram décadas depois de sua morte, sob imperadores que tinham interesse em apresentar a dinastia anterior como corrupta e tirânica. A revisão histórica não absolve Nero — mas complica a caricatura.
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E você, o que acha de Nero — monstro histórico ou vítima da propaganda dos vencedores? A resposta provavelmente depende de qual fonte você leu primeiro. Deixe nos comentários.
