|

Quem foi Jack, o Estripador: o perfil do assassino

Quem foi Jack, o Estripador
“Um possível suspeito”, caricatura do The Illustrated London News publicada em 13 de outubro de 1888 – Quem foi Jack, o Estripador

No outono de 1888, um punhado de ruas mal iluminadas no East End de Londres virou palco do crime não resolvido mais famoso da história. Em pouco mais de dez semanas, cinco mulheres foram brutalmente assassinadas — e o responsável simplesmente desapareceu, sem nome e sem rosto. Mais de 130 anos depois, a pergunta continua exatamente onde parou: afinal, quem foi Jack, o Estripador? Neste artigo, vamos atrás não da lenda, mas dos fatos confirmados — e do que a ciência forense realmente consegue dizer sobre o perfil do assassino.

O cenário do crime: Quem foi Jack, o Estripador – O terror de Whitechapel

Os assassinatos aconteceram em Whitechapel, um dos bairros mais pobres e superlotados de Londres. Becos sem saída, cortiços, escuridão quase total à noite e uma população flutuante de imigrantes e trabalhadores miseráveis criavam o ambiente perfeito para um predador agir sem ser visto. Os crimes ficaram registrados na imprensa e na polícia também sob outros apelidos — the Whitechapel Murderer (o Assassino de Whitechapel) e Leather Apron (Avental de Couro).

O caso oficial, batizado pela Scotland Yard de “Whitechapel Murders”, abrange onze vítimas entre abril de 1888 e fevereiro de 1891. Mas a polícia da época vinculou a um único matador apenas cinco delas — todas em 1888. Para entender como o medo tomou conta da capital britânica e como o mito nasceu, vale conferir nossa investigação completa em O Mistério de Whitechapel: a lenda de Jack, o Estripador que desafia o tempo.

As cinco vítimas que a história não esquece

São as chamadas “cinco canônicas”, lista consolidada num memorando do alto comissário Melville Macnaghten em 1894:

  • Mary Ann “Polly” Nichols — encontrada em 31 de agosto de 1888, em Buck’s Row.
  • Annie Chapman — 8 de setembro de 1888, em Hanbury Street; o útero foi removido.
  • Elizabeth Stride e Catherine Eddowes — ambas mortas na madrugada de 30 de setembro de 1888, no episódio que ficou conhecido como “o duplo evento”. De Eddowes, o assassino retirou o útero e um rim.
  • Mary Jane Kelly — 9 de novembro de 1888, no quarto 13 de Miller’s Court; foi a única morta em ambiente fechado e a que sofreu a mutilação mais extrema.

Todas tinham a garganta cortada antes das mutilações abdominais. Esse padrão — e a remoção de órgãos de pelo menos três vítimas — é justamente o ponto de partida de qualquer tentativa séria de traçar o perfil do assassino.

O perfil do assassino segundo a ciência forense

Aqui o tema sai do terreno do boato e entra no da análise. Em 1888, o médico-legista Dr. Thomas Bond, que conduziu a autópsia de Mary Jane Kelly, escreveu um dos primeiros perfis criminais documentados da história, descrevendo o tipo de indivíduo que a polícia deveria procurar.

Um século mais tarde, em 1988, o agente especial John Douglas, do FBI — pioneiro da técnica de perfilamento criminal e inspiração para personagens de séries como Mindhunter — revisou todo o material disponível e produziu uma análise técnica de Jack, o Estripador. Suas conclusões, hoje amplamente citadas, desenham um retrato bem diferente do nobre misterioso de capa e cartola que o imaginário popular consagrou:

  • Um homem solitário, socialmente desajustado, com fantasias de dominação, crueldade e mutilação de mulheres.
  • Alguém que morava ou trabalhava na própria região de Whitechapel — não um visitante ocasional.
  • Um suspeito que provavelmente foi interrogado pela polícia mais de uma vez ao longo da investigação, sem despertar suspeita.
  • Os crimes foram classificados como lust murders (assassinatos por compulsão), em que o ataque se concentra nas áreas genitais da vítima.

Esse perfil derruba uma das ideias mais difundidas sobre o caso, como veremos a seguir.

A pista da “habilidade anatômica”: mito ou verdade?

A remoção precisa de órgãos alimentou, desde 1888, a teoria de que o assassino seria um médico, um cirurgião ou ao menos um açougueiro com conhecimento de anatomia. É um detalhe sedutor — e parcialmente sustentado pelos fatos: retirar um rim de Catherine Eddowes, no escuro quase absoluto de Mitre Square, exigia alguma noção de onde os órgãos ficavam.

Mas é aí que o perfil moderno pede cautela. A análise do FBI sugere apenas um conhecimento anatômico básico, compatível com profissões bem menos glamourosas que a de cirurgião — um açougueiro, um assistente de necrotério, um auxiliar de hospital. Em outras palavras: o “doutor assassino” é, em boa parte, invenção literária. O perfil do assassino aponta para um homem comum, anônimo, invisível justamente por ser banal.

As cartas, o nome e a invenção de um monstro

Poucas pessoas sabem que o próprio nome “Jack, o Estripador” pode ser uma fabricação. Ele surgiu na carta “Dear Boss”, enviada a uma agência de notícias e assinada pelo suposto criminoso. Hoje, a hipótese mais aceita é que a carta tenha sido um embuste, possivelmente escrito por jornalistas para inflar a circulação dos jornais e manter a histeria — e as vendas — em alta.

Houve exceções levadas a sério. A carta “From Hell” (“Do Inferno”) chegou acompanhada de uma caixa com metade de um rim humano. Nunca se confirmou se o órgão pertencia a uma das vítimas ou se era apenas uma peça anatômica usada numa brincadeira mórbida. O recado, porém, ajuda a entender como mito e evidência se misturaram desde o primeiro dia.

Os suspeitos e a promessa do DNA

Ao longo de mais de um século, dezenas de nomes foram cogitados. Entre os suspeitos clássicos citados pela própria polícia estão o advogado Montague Druitt, o criminoso russo Michael Ostrog e, sobretudo, o barbeiro polonês Aaron Kosminski — o favorito de dois dos principais investigadores da época, Robert Anderson e Donald Swanson.

Kosminski voltou ao centro do debate recentemente. O pesquisador Russell Edwards afirma ter obtido um “100% de compatibilidade” de DNA a partir de um xale supostamente recolhido junto ao corpo de Catherine Eddowes, apontando o barbeiro como o culpado. A alegação rendeu manchetes e até um pedido de novo inquérito, apoiado por descendentes das vítimas.

Aqui, contudo, é onde o jornalismo precisa frear a empolgação. Especialistas forenses contestam fortemente a conclusão: o DNA mitocondrial usado, por sua própria natureza, serve mais para excluir suspeitos do que para confirmar um; o xale pode ter sido contaminado em mais de cem anos de manuseio; e nem sequer há prova sólida de que a peça esteve, de fato, na cena do crime. Um pedido anterior de inquérito chegou a ser negado pela Procuradoria-Geral britânica. O fato confirmado, portanto, permanece desconfortável: o caso segue oficialmente sem solução.

Por que o caso ainda nos assombra

A força de Jack, o Estripador está justamente no vazio que ele deixou. Sem rosto, sem nome e sem confissão, ele virou uma tela em branco onde cada geração projeta seus próprios medos. É o mesmo motor que move outros enigmas que atravessam décadas sem resposta — como o desaparecimento que analisamos em A última noite de Madeleine McCann: o que o apartamento 5A revela.

O retrato mais honesto do assassino, ao fim da apuração, não é o de um gênio sombrio, mas o de um homem perturbado, anônimo e localmente integrado — alguém que a polícia talvez tenha olhado nos olhos sem nunca perceber. E talvez seja essa a parte mais aterrorizante de todas.

Para se aprofundar no histórico documental do caso, vale consultar o verbete completo sobre Jack, o Estripador na Wikipédia.


E você, o que acha? Diante do perfil traçado pela ciência forense, em qual suspeito você apostaria — ou acredita que a verdade morreu com o próprio assassino? Deixe sua teoria nos comentários e ajude a manter vivo o debate.

Se você curte mergulhar em mistérios que desafiam o tempo — dos becos de Whitechapel às profundezas geladas do planeta, como em

O enigma do Lago Vostok: um “mundo alienígena” escondido sob o gelo da Antártida —, inscreva-se e siga o Cortes Históricos. A próxima investigação já está a caminho.

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *