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As Cartas de Jack, o Estripador: o que a “Dear Boss” e a “From Hell” revelam

As Cartas de Jack, o Estripador
A carta “Dear Boss”

E se o nome mais temido da história do crime tivesse sido inventado por um jornalista em busca de manchete? Por mais perturbadora que a ideia pareça, ela está no centro de uma das maiores reviravoltas do caso. O apelido “Jack, o Estripador” não foi gritado por testemunhas nem cunhado pela polícia: ele apareceu pela primeira vez numa carta — uma carta que muitos investigadores acreditam ser falsa. Neste artigo, mergulhamos nas três correspondências mais famosas atribuídas ao assassino de Whitechapel, As Cartas de Jack, o Estripador e separamos, como sempre, o fato confirmado da lenda.

As Cartas de Jack, o Estripador: Uma avalanche de cartas

No auge do pânico de 1888, a polícia e os jornais de Londres foram soterrados por correspondência. Estima-se que mais de dois mil bilhetes e cartas tenham chegado, todos supostamente escritos pelo criminoso. A imensa maioria era trote — obra de brincalhões mórbidos, de gente em busca de atenção ou de jornalistas tentando manter a histeria (e as vendas) em alta.

Em meio a esse mar de fraudes, três peças se destacaram e atravessaram o tempo: a carta “Dear Boss”, o cartão “Saucy Jacky” e a carta “From Hell”. São elas que sustentam quase tudo o que o imaginário popular associa a Jack, o Estripador.

A carta “Dear Boss”: o nascimento de um nome

Datada de 25 de setembro de 1888 e recebida pela Central News Agency em 27 de setembro, a “Dear Boss” foi escrita em tinta vermelha e encaminhada à Scotland Yard dois dias depois. Era zombeteira, provocava a polícia e prometia novos crimes. E trazia, ao final, a assinatura que mudaria tudo: “Yours truly, Jack the Ripper” (“Atenciosamente, Jack, o Estripador”).

De início, a carta foi tratada como mais um trote. Mas algo aconteceu logo em seguida que fez as autoridades hesitarem. Na madrugada de 30 de setembro veio o “duplo evento” — duas vítimas na mesma noite. E a “Dear Boss” continha uma promessa macabra: a de cortar as orelhas de uma futura vítima. Quando se descobriu que parte da orelha de Catherine Eddowes havia sido seccionada, a coincidência arrepiou a investigação. A polícia decidiu divulgar a carta na esperança de que alguém reconhecesse a letra. O resultado? Uma nova enxurrada de imitações.

O cartão “Saucy Jacky”

Em 1º de outubro de 1888, a Central News Agency recebeu um segundo recado — um cartão-postal hoje conhecido como “Saucy Jacky”. Ele se gabava do “duplo evento” da véspera, mencionando que duas vítimas haviam caído na mesma noite, uma delas sem que o trabalho pudesse ser concluído.

A caligrafia batia com a da “Dear Boss”, sugerindo o mesmo autor. Para alguns, o conhecimento sobre os dois assassinatos seria prova de autenticidade; para os céticos, nada de mais — quando o cartão foi postado, os jornais já noticiavam os crimes em detalhes. Curiosamente, tanto a “Dear Boss” quanto o “Saucy Jacky” sumiram dos arquivos policiais por décadas. A primeira foi devolvida à Polícia Metropolitana de forma anônima em 1988; o cartão permanece desaparecido, restando apenas uma cópia fotográfica.

A carta “From Hell”: o pacote macabro

Se há uma peça que escapa do rótulo de simples trote, é a “From Hell” — também chamada de “carta de Lusk”. Em 16 de outubro de 1888, George Lusk, presidente do Comitê de Vigilância de Whitechapel (um grupo de cidadãos que ajudava a polícia), recebeu pelo correio uma pequena caixa de papelão. Dentro, embrulhado e cheirando a conservante, estava metade de um rim humano.

A carta que acompanhava o “presente” era diferente das anteriores: escrita num inglês precário, cheio de erros, começava com as palavras “From hell” (“Do inferno”) e afirmava que o autor havia retirado o rim de uma mulher, conservado uma metade para Lusk — e fritado e comido a outra. Encerrava com um desafio arrepiante: “Pegue-me quando puder.”

Um detalhe técnico aprofunda o mistério: a caligrafia da “From Hell” não corresponde à da “Dear Boss” e do “Saucy Jacky”. Ou seja, se as três forem autênticas, teriam autores diferentes — o que já basta para mostrar como o caso virou um emaranhado de vozes.

O rim era real?

Esta é a pergunta que assombra historiadores até hoje. O órgão foi examinado por médicos, entre eles o Dr. Thomas Openshaw. As análises confirmaram tratar-se de meio rim humano, de uma mulher, possivelmente com sinais da chamada doença de Bright — um problema renal associado ao consumo excessivo de álcool. Catherine Eddowes, de quem o assassino havia retirado um rim, tinha 46 anos e fama de beber demais.

A tentação de fechar a conta é enorme. Mas o fato confirmado é frustrante: os exames foram considerados inconclusivos. Não havia, em 1888, como provar que aquele rim pertencia a Eddowes, e a própria carta original acabou perdida, sobrevivendo apenas em fotografia. Pode ter sido a única evidência física já enviada pelo verdadeiro assassino — ou uma brincadeira sinistra feita com material de necrotério ou de sala de dissecação. Nunca saberemos.

O maior plot twist: o nome foi invenção de jornalista?

Aqui está a revelação que reorganiza toda a história. Anos depois, figuras graduadas da própria polícia passaram a tratar a “Dear Boss” como fraude. Em suas memórias de 1910, o ex-comissário assistente Robert Anderson foi enfático ao afirmar que a carta era um embuste — e que a polícia conhecia a identidade do autor, alguém ligado ao mundo da imprensa. Investigadores chegaram a apontar o jornalista Tom Bullen (ou Bulling), da Central News Agency, como o provável responsável.

A história ganhou um epílogo em 1931, quando o jornalista Fred Best teria confessado ter escrito “As Cartas de Jack, o Estripador” a “Dear Boss” e o cartão “Saucy Jacky” com um objetivo nada nobre: “manter o negócio vivo” — ou seja, alimentar a cobertura e vender jornais. Não há como confirmar a confissão em definitivo, mas ela é considerada plausível por muitos pesquisadores.

Se estiverem certos, a conclusão é desconcertante: o nome “Jack, o Estripador”, que aterroriza o mundo há mais de um século, pode ter sido a tacada de marketing de um repórter — e não a assinatura de um monstro.

Veja também:

Os suspeitos de Jack, o Estripador: por que o caso nunca foi resolvido

O Mistério de Whitechapel: A Lenda de Jack, o Estripador que Desafia o Tempo

As cinco vítimas canônicas de Jack, o Estripador: histórias reais

O que as cartas realmente revelam

No fim das contas, as cartas talvez digam mais sobre a Londres de 1888 do que sobre o assassino. Revelam uma imprensa sedenta por circulação, uma sociedade em pânico e uma polícia sem ferramentas para distinguir a voz do criminoso do barulho dos impostores. Das três, apenas a “From Hell”, por causa do rim, mantém viva a possibilidade de um contato real com o responsável — e ainda assim, sem prova. As demais provavelmente são ruído. Mas que ruído poderoso: foi ele que deu ao assassino o nome que o tornou eterno.


E você, em qual das cartas apostaria? Acredita que o rim da “From Hell” veio mesmo do assassino — ou que tudo não passou de um teatro macabro armado pela imprensa da época? Conte sua teoria nos comentários; esse é um dos debates mais fascinantes de todo o caso.

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