Os suspeitos de Jack, o Estripador: por que o caso nunca foi resolvido

Mais de 130 anos, centenas de livros, documentários, análises de DNA — e nenhuma resposta definitiva. O caso de Jack, o Estripador segue oficialmente em aberto, e talvez seja justamente isso que o mantém vivo. Ao longo do tempo, dezenas de homens foram apontados como o assassino de Whitechapel: barbeiros, médicos charlatães, advogados, conmen russos e até um príncipe. Mas quantos desses nomes foram suspeitos de verdade — e quantos são apenas invenção sensacionalista? Neste artigo, separamos o que a polícia da época levou a sério do que a cultura popular transformou em lenda. E, no fim, enfrentamos a pergunta que ninguém quer responder: por que o caso nunca foi resolvido?

O memorando que criou a lista oficial

Boa parte da “lista de suspeitos” que circula até hoje nasce de um único documento: o memorando de 1894 do alto funcionário da Polícia Metropolitana Sir Melville Macnaghten. Mas há uma ironia pouco lembrada. Macnaghten não fazia parte da equipe original que investigou os crimes em 1888 — e seu memorando foi escrito não para acusar, mas para refutar uma reportagem do jornal The Sun, que apontava um homem chamado Thomas Hayne Cutbush como o Estripador.

Para derrubar a tese do jornal, Macnaghten citou três nomes que, segundo ele, eram candidatos mais plausíveis. Esses três viraram o núcleo “oficial” dos suspeitos de Jack, o Estripador.

Os três nomes da polícia: Druitt, Kosminski e Ostrog

Montague John Druitt era advogado e professor. Seu corpo foi encontrado no rio Tâmisa em dezembro de 1888, e acredita-se que tenha cometido suicídio após perder o emprego de professor em Blackheath, semanas depois do último assassinato. Macnaghten afirmou ter recebido uma informação de terceira mão de que a própria família de Druitt suspeitava dele. Não há, porém, nenhuma evidência direta ligando-o aos crimes.

Aaron Kosminski, imigrante polonês e barbeiro que vivia em Whitechapel, era o favorito de dois dos investigadores mais graduados, Robert Anderson e Donald Swanson. Ele foi internado num manicômio, sofria de alucinações auditivas e teria, segundo relatos, ameaçado a própria irmã com uma faca. Por outro lado, era descrito como praticamente inofensivo dentro do asilo — o que mantém sua candidatura no terreno do circunstancial.

Michael Ostrog, russo, era um vigarista e ladrão conhecido por usar disfarces e títulos falsos. Apesar da fama de “médico russo louco”, não tinha nenhuma qualificação médica e, na prática, quase não há indícios concretos contra ele. Hoje, é considerado o mais frágil dos três.

Os suspeitos que a cultura popular adotou

Fora da lista policial, a imaginação correu solta — e é aqui que o rigor precisa entrar.

Francis Tumblety, um charlatão norte-americano, estava em Londres na época, era conhecido por seu ódio declarado a mulheres e teria colecionado úteros em frascos. Detalhes inquietantes, sem dúvida, mas que continuam circunstanciais.

James Maybrick, comerciante de Liverpool, ganhou fama com o suposto “diário de Jack, o Estripador”, surgido em 1992. O problema é central: a autenticidade do diário é amplamente contestada, e muitos especialistas o consideram uma falsificação.

E há a teoria mais famosa de todas — a conspiração real. Popularizada pelo livro Jack the Ripper: The Final Solution (1976), de Stephen Knight, ela envolveria o príncipe Albert Victor, neto da rainha Vitória, e o médico real Sir William Gull, num suposto acobertamento da Coroa. É a versão preferida do cinema e da ficção, mas é também a mais desacreditada pelos historiadores sérios: o príncipe sequer estava em Londres nas datas de vários assassinatos. O pintor Walter Sickert, apontado décadas depois pela escritora Patricia Cornwell, é outro nome popular que a maioria dos pesquisadores rejeita.

A controvérsia do DNA: o caso está encerrado?

Recentemente, manchetes ao redor do mundo anunciaram que o mistério havia, enfim, acabado. O pesquisador Russell Edwards afirma ter obtido uma compatibilidade total de DNA a partir de um xale supostamente recolhido junto ao corpo da vítima Catherine Eddowes, apontando novamente para Aaron Kosminski. Há até um pedido de inquérito formal apoiado por descendentes das vítimas.

A prudência, no entanto, é obrigatória. Especialistas forenses contestam a conclusão por motivos sólidos: o DNA mitocondrial empregado serve mais para excluir do que para confirmar um suspeito; o material poderia pertencer a milhares de outros homens da Londres da época; o xale pode ter sido contaminado em mais de um século de manuseio; e não há prova robusta de que a peça esteve, de fato, na cena do crime. Um pedido anterior de inquérito chegou a ser negado. Ou seja: por mais sedutora que a notícia seja, o caso continua oficialmente sem solução.

Por que o caso nunca foi resolvido

Aqui está o coração da investigação. A impunidade de Jack, o Estripador, não foi obra de gênio — foi resultado de um conjunto de fatores muito concretos:

  • A ciência de 1888 era cega. Não havia identificação por impressões digitais (só adotada pela polícia britânica anos depois), não havia exame de DNA nem tipagem confiável de sangue. A perícia, como conhecemos hoje, simplesmente não existia.
  • O cenário ajudava o assassino. As ruas escuras, sem iluminação adequada, e a população enorme e transitória de Whitechapel permitiam atacar e desaparecer em minutos.
  • A histeria atrapalhou. Centenas de cartas, a maioria trotes, inundaram a polícia e a imprensa, desviando recursos e criando pistas falsas.
  • Rivalidade entre forças. Os crimes cruzaram a fronteira entre duas polícias — a Metropolitana e a da Cidade de Londres —, dificultando a coordenação.
  • Provas perdidas. Uma inscrição feita a giz perto de um fragmento ensanguentado de roupa de uma vítima foi apagada por ordem das autoridades antes de ser fotografada — e boa parte dos arquivos originais se perdeu com as décadas.

Some tudo isso e o resultado é inevitável: o homem por trás dos crimes mais famosos da história tinha, a seu favor, o tempo, a tecnologia e o caos. E venceu os três.

Veja também:

O Mistério de Whitechapel: A Lenda de Jack, o Estripador que Desafia o Tempo

As cinco vítimas canônicas de Jack, o Estripador: histórias reais

Madeleine McCann: tudo o que sabemos sobre o maior mistério do mundo


E você, em qual suspeito apostaria? Druitt, Kosminski, Tumblety — ou acredita que o verdadeiro Jack, o Estripador, foi alguém cujo nome nunca chegou a aparecer em lista nenhuma? Deixe sua teoria nos comentários; adoramos um bom debate investigativo.

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