|

Ed Gein: o Homem que Matou Duas Pessoas — e Inspirou Três dos Maiores Vilões do Cinema

Ele não era um serial killer no sentido técnico do termo. Foi formalmente condenado por apenas dois assassinatos. Mas quando a polícia entrou em sua fazenda em Plainfield, Wisconsin, em novembro de 1957, o que encontrou era tão perturbador que mudou para sempre a cultura americana — e deu origem a três dos personagens mais icônicos do cinema de terror: Norman Bates de Psicose, Leatherface de O Massacre da Serra Elétrica e Buffalo Bill de O Silêncio dos Inocentes. A história real de Ed Gein é mais estranha, mais triste e mais reveladora sobre a psicologia humana do que qualquer ficção que ela inspirou.

Ed Gein

Uma infância construída em torno da mãe

Edward Theodore Gein nasceu em 27 de agosto de 1906, em La Crosse County, Wisconsin, segundo filho de George e Augusta Gein. O pai, George, era alcoólatra e fraco — um homem que Augusta desprezava abertamente. Augusta, por sua vez, era dominadora, profundamente religiosa e convicta de que o mundo exterior era um lugar de pecado e perdição.

Ela criou os dois filhos em relativo isolamento numa fazenda em Plainfield, proibindo-os de ter amigos e pregando constantemente sobre a imoralidade das mulheres — com exceção dela mesma, que apresentava como o único modelo feminino aceitável. Ed cresceu absorvendo cada palavra.

Quando o pai morreu, em 1940, Augusta ficou como única presença adulta na vida de Ed. Quando ela sofreu um derrame e morreu em dezembro de 1945, Ed, aos 39 anos, ficou completamente sozinho. Ele preservou os quartos da mãe exatamente como ela os havia deixado — um santuário imaculado num mar de deterioração. O resto da casa foi apodrecendo. Ed também.

Os cemitérios e o que a polícia ainda não sabia

Entre 1947 e 1952, Ed Gein fez visitas noturnas a cemitérios locais. Ele confessou ter feito até 40 dessas incursões — exumando corpos de mulheres recentemente enterradas, especialmente aquelas que achava se parecerem com a mãe. Retirava o que queria e recompunha as sepulturas para não levantar suspeitas.

Ninguém sabia. Aos olhos de Plainfield, Ed era apenas um fazendeiro quieto, um tanto estranho, mas inofensivo — aquele vizinho que aparecia para fazer pequenos trabalhos e que as crianças da cidade às vezes procuravam porque ele contava histórias. Ninguém imaginou que, dentro da fazenda, ele havia construído um mundo particular com os restos dos mortos.

Os dois assassinatos confirmados

Em 1954, Mary Hogan, proprietária de uma taberna local, desapareceu. O caso ficou sem solução. Em 16 de novembro de 1957, Bernice Worden, dona de uma loja de ferragens em Plainfield, também desapareceu. Registros da loja mostravam que Ed Gein havia sido o último cliente do dia.

A polícia foi até a fazenda. O que encontraram num dos celeiros foi o corpo de Bernice Worden — pendurado pelos tornozelos, decapitado e preparado como um animal de caça. A busca pelo restante da propriedade revelou também o crânio de Mary Hogan.

Esses foram os dois únicos assassinatos aos quais Ed Gein foi formalmente condenado. Outros desaparecimentos na região de Wisconsin foram investigados — incluindo os de uma menina de 8 anos e de uma adolescente de 14 —, mas sua participação nunca foi provada. É um ponto técnico importante: tecnicamente, Ed Gein não se qualifica como serial killer pela definição do FBI, que exige três ou mais vítimas em eventos separados. Mas o que estava dentro daquela fazenda tornava qualquer categoria insuficiente.

O que estava na fazenda

A busca da propriedade revelou um interior que parecia saído de um pesadelo. Os investigadores encontraram objetos confeccionados com pele e ossos humanos obtidos tanto de exumações quanto das duas vítimas assassinadas: abajures, cestos, cadeiras estofadas, tigelas feitas de crânios e o que ficou conhecido como “woman suit” — uma espécie de roupa confeccionada com pele humana, que Ed usava para “se tornar” sua mãe.

A fazenda se tornou imediatamente um ponto de atração macabra — milhares de curiosos foram até Plainfield nas semanas seguintes à prisão. A casa foi destruída por um incêndio em 1958, antes que pudesse ser transformada em museu por empresários locais. O carro de Ed foi leiloado numa feira e apresentado como atração.

Da fazenda para o cinema: como Ed Gein criou monstros

O impacto cultural de Ed Gein foi desproporcional ao número de suas vítimas confirmadas — e isso se explica pelo que ele representava: não o estranho que claramente parecia perigoso, mas o vizinho amigável que ninguém suspeitava.

Norman Bates, de Psicose (1960), de Alfred Hitchcock: baseado no romance de Robert Bloch publicado um ano após a prisão de Gein. A obsessão pela mãe morta, o isolamento na propriedade rural, a dupla identidade — todos ecos diretos do caso real.

Leatherface, de O Massacre da Serra Elétrica (1974): a família de canibais numa fazenda isolada, o uso de pele humana como máscara — o diretor Tobe Hooper confirmou a inspiração em Gein.

Buffalo Bill, de O Silêncio dos Inocentes (1991): o assassino que cria um “traje” com pele das vítimas é a referência mais direta ao “woman suit” de Gein.

Três filmes, três décadas diferentes, três gerações de espectadores — todos assombrados por variações do mesmo homem de Plainfield.

O julgamento que não foi um julgamento

Após a prisão, Ed Gein foi considerado mentalmente incapaz de ser julgado, diagnosticado com esquizofrenia, e internado num hospital psiquiátrico. Em 1968, foi considerado apto para responder na Justiça — e foi condenado por assassinato em primeiro grau pelo caso Bernice Worden. Imediatamente declarado inocente por motivo de insanidade, voltou para a instituição psiquiátrica.

Nunca foi preso numa penitenciária convencional. Passou o restante da vida em instituições de saúde mental, onde morreu em 26 de julho de 1984, aos 77 anos, de insuficiência respiratória. Está enterrado no mesmo cemitério de Plainfield cujos túmulos havia profanado décadas antes.

O que Ed Gein nos ensina

A perturbação duradoura do caso Gein não está nos números — dois assassinatos confirmados é menos do que muitos criminosos que o mundo esqueceu. Está na combinação de elementos que ele encarnava: a aparência de normalidade perfeita, o isolamento que permite que uma mente se deteriore sem que ninguém perceba, e o papel devastador que a relação com uma figura materna dominadora pode ter no desenvolvimento psicológico.

Gein não nasceu monstro. Foi construído por décadas de isolamento, rejeição do mundo exterior e a morte da única pessoa em torno da qual havia organizado toda sua existência. A tragédia — e o horror — está em que ninguém viu o que estava acontecendo. Nem em Plainfield, nem na fazenda, nem dentro de Ed Gein.

Veja também:

Charles Manson: o Músico Rejeitado que Convenceu Outros a Matar por Ele

Ted Bundy: o Charme que Enganou o Mundo — e a Confissão que Veio Tarde Demais


E você, sabia que Ed Gein foi condenado por apenas dois assassinatos — e que sua fama veio de algo diferente? O caso levanta questões sobre como julgamos o perigo em pessoas que não parecem perigosas. Deixe nos comentários o que acha mais perturbador nessa história.

Se você quer continuar investigando os casos que desafiam qualquer definição simples, inscreva-se e siga o Cortes Históricos. A realidade, aqui, é sempre mais complexa do que a ficção.

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *